Empreender depois dos 50: transformando propósito em negócio

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Há fases da vida em que um novo chamado se aproxima devagar. Ele pode nascer de um sonho antigo que amadureceu ou de um incômodo mais recente, desses que nos lembram que trabalhar não precisa ser sinônimo de apenas sobreviver. É quando muitos percebem que já viveram o suficiente para saber o que não querem e ainda têm tempo de fazer o que desejam. Justamente por isso que muitos decidem empreender depois dos 50, seja por maturidade ou propósito.

Dados do (GEM) Monitor Global de Empreendedorismo de 2024, mostram que esse público nunca esteve tão ativo. Entre os empreendedores iniciais do país, o grupo de 55 a 64 anos alcançou seu maior índice histórico, representando 13,3%.

Para Francisco Carlos Gomes, psicólogo e cofundador do canal Longidade, essa virada tem raízes profundas. “Quando começamos a vida profissional, raramente escolhemos com consciência. Precisamos pagar contas. Com o tempo, surge o sonho de empreender com mais liberdade e desejo de ser bem-sucedido.”

A vida real também impulsiona

Cláudia Alves, gerontóloga e empreendedora digital, brinca que não escolheu o empreendedorismo, foi ele que a escolheu. Aos 36 anos, após ser demitida, precisou se reinventar. Virou corretora de imóveis, depois cuidadora da própria mãe, e mesmo nos períodos mais desafiadores nunca deixou de encontrar formas criativas de gerar renda. Nada nasceu de um sonho romântico. E foi justamente por isso que, aos 50+, o empreendedorismo ganhou forma, maturidade e propósito.

Durante a pandemia, lançou seu primeiro curso online voltado para a humanização do cuidado com idosos. Queria unir seu conhecimento técnico, sua vivência com a mãe e o desejo profundo de ajudar famílias que enfrentavam desafios semelhantes. “Eu buscava liberdade, sentido e a chance de transformar minha história em algo que fizesse diferença”, conta.

Hoje, ela diz que trabalha com leveza. “No trabalho antigo, seguia rotinas impostas. Hoje sigo meu chamado. Não é só trabalho mas uma missão.”

Surama Jurdi, 57 anos, CEO e fundadora da Surama Jurdi Academy, por outro lado, viveu uma trajetória diferente mas igualmente marcada pela força de um propósito que amadureceu com o tempo. Ela conta que sua veia empreendedora nasceu cedo, vendendo bijuterias ainda criança. Aos 32, abriu uma escola de idiomas. Foram 23 anos à frente do negócio até perceber que o seu propósito ultrapassava o ensino de idiomas.

Um processo profundo de autoconhecimento que envolveu mudança de hábitos e reconstrução da própria rotina, abriu um novo caminho. Essa expansão virou base para a sua empresa Surama Jurdi Academy. “Quando faço algo, tenho certeza de que vai dar certo. Às vezes não sei o caminho, mas enxergo o resultado.”

Os cuidados emocionais antes de mudar de rota

Segundo o psicólogo, quem deseja empreender são movidos por dois sentimentos diferentes: propósito ou fuga.

Propósito, segundo ele, exige método, estudo e tempo. Fuga seja por exaustão ou pressa costuma levar a ilusões. “Muita gente se encanta com promessas de sucesso rápido. Isso não existe. Queimar etapas coloca em risco o que foi construído ao longo da vida.

Cláudia afirma que isso vem a partir da prática. Antes de lançar seus cursos, estudou o mercado digital e se preparou financeiramente. “O medo da tecnologia, de não ser vista, de não dar conta existia, mas foi enfrentado passo a passo. Aprendi que o que sustenta um negócio não é idade mas a consistência.”

Empreender depois dos 50 vai muito além de ter técnica ou estabilidade financeira. Muitos esquecem que o preparo emocional nessa mudança pesa ainda mais e pode definir o sucesso desse novo começo.

Francisco sugere começar por:

  • Conversas com pessoas experientes na área;
  • Mentoria séria;
  • Quando necessário, psicoterapia para entender se o impulso é expressão de propósito ou de desgaste.

“Muita gente acha que sente um chamado, mas está só exausta. É preciso cuidar dessa dor antes de ver com clareza o novo caminho”, afirma.

A empreendedora Cláudia conta que entre cuidar da mãe e criar um negócio simultaneamente, o maior aprendizado emocional foi descobrir coragem e resiliência. “Empreender depois dos 50 me mostrou que sou capaz de recomeçar quantas vezes for preciso.”

Surama que sempre buscou autoconhecimento como base, destaca que a verdadeira força aparece quando propósito, performance e valores pessoais se alinham.  “Aprendi que tenho uma capacidade de adaptação muito maior do que imaginava e que impacto é mais importante do que status.”

O que avaliar primeiro antes de empreender? 

Antes de abrir um negócio, Francisco recomenda um passo básico: entender se você realmente tem perfil para empreender. “Empreender é diferente de ter um emprego com horário fixo e RH cuidando das burocracias. No início, é tudo por sua conta. Muitas vezes se trabalha mais.”

Nem todo mundo entende o valor do seu trabalho logo no começo. “É preciso persistir, educar, insistir. Não é rápido mas é possível”, conta a gerontóloga.

A melhor estratégia, segundo Francisco, é manter a atividade principal enquanto se estuda e testa o novo projeto. Transições feitas aos poucos tendem a ser mais sustentáveis e menos angustiantes. Surama acrescenta que risco financeiro existe, mas nunca deve ser sinônimo de salto no escuro. Para ela, tudo precisa ser um risco calculado. Fluxo de caixa estruturado, gestão madura e clareza de propósito são o que tornam o negócio sustentável. “Propósito atrai resultado, desde que venha acompanhado de disciplina.”

Nunca é tarde para quem ainda tem vida pela frente

É comum ouvir comentários como “já passou da idade para começar” ou “isso é coisa para gente mais jovem” mas nada disso precisa ganhar espaço dentro de quem decide recomeçar. A maturidade é um patrimônio, e a idade, em vez de limitar, pode ser justamente o impulso para dar forma a algo novo.

Cláudia aconselha que separar emoção de decisão é essencial e que manter planejamento financeiro é o que torna o processo menos assustador. “Às vezes há frio na barriga, mas não dúvida. Quando sinto que algo é pra acontecer, acelero”, lembra Surama.

Francisco reforça a mesma ideia sob outra lente: empreender nessa fase pode ser uma das experiências mais ricas da jornada, desde que feita sem pressa, com planejamento e com apoio.

“Depois dos 50, o tempo se torna o ativo mais valioso. Empreender nessa etapa é transformar experiência em legado.”

Fonte: https://vidasimples.co/carreira-e-financas/empreender-depois-dos-50-transformando-proposito-em-negocio/

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